Saiba como o movimento correto dos braços pode melhorar sua técnica, aumentar a eficiência e prevenir lesões na corrida.
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Para qualquer treino ou prova de Corrida, é comum a preocupação com algo a se carregar nos braços: relógio, celular, creme, manguito... e ao mesmo tempo não se dar conta de como se comporta a movimentação dos mesmos, já que isso rapidamente se tornou automático e confortável tal como está; mas a pergunta é: existiriam eventuais ajustes que melhorassem a movimentação desse segmento para incidir positivamente na técnica do todo?


A FORÇA MOTRIZ

Embora o que conte mesmo para o desenvolvimento e desempenho na Corrida seja o protagonismo das pernas pela sua propulsão, é inegável que, quanto maior o nível competitivo ou o autodesafio, maior a importância da soma de detalhes afinados, e assim entram os braços como fortes coadjuvantes.


Modalidades mais dependentes dos braços do que das pernas e modalidades com certo equilíbrio dessa dependência, como por exemplo, a Natação e o Fisiculturismo respectivamente, não devem descuidar, concentrando muito empenho também no treinamento geral e específico dos braços, enquanto que, esportes mais dependentes das pernas, como a Corrida, ainda mais a de âmbito amador, podem tender a negligenciar os cuidados com a preparação e a técnica de movimento dos braços.


Um dos maiores corredores fundistas que o Brasil já teve, atuou entre as décadas de 1980 e 90, trazia os braços colados ao corpo, gerando consequências que veremos mais adiante, e um dos nossos maiores corredores velocistas, na mesma época, corria com as mãos espalmadas, gerando alguma tensão nos antebraços que poderia se deslocar para regiões mais centrais do corpo.


A inquestionável performance internacional de ambos, fazia das posturas de seus braços um mero detalhe de estilo próprio de correr, mas uma questão pode surgir: poderiam eles ter participado de maneira mais relaxada e assim, terem sido ainda melhores?


A seguir, a imagem com uma sugestão de exercício específico de resistência de força de braços aplicado à corrida, frequentemente presente nos treinos de Força Funcional do Clube da Corrida.



Este movimento, tal como na corrida, abrange as regiões anteriores dos ombros e porções peitorais, além dos braços e antebraços, reforçando e provendo uma ótima condição a esses grupamentos para suportarem os percursos longos sem exaustão e auxiliarem nos ritmos mais intensos, assim como, promovendo ajustes técnicos de angulações e direção.

Ele ainda atua no componente anti-rotacional protetivo da coluna, via musculatura profunda das costas.


O ponto de fixação dos elásticos, posterior ao corpo e abaixo da linha dos antebraços, oferece uma resistência de resultante muito interessante (veja no esquema abaixo).


OS VÍCIOS DE POSTURA adquiridos com os desvios do padrão ideal ou satisfatório de movimentos dos braços na corrida, são tidos como normais para o cérebro, assim automatizados, e na tentativa de realinhá-los surge o desconforto; é aí que entram os estímulos e a persistência para as correções, nem sempre fáceis, porque além da aplicação dos exercícios direcionados é preciso acompanhar a situação com elevada frequência, certo nível de consciência corporal e disposição para mudar.  


A TÉCNICA CORRETA dos braços do corredor pede um movimento anteroposterior dos mesmos em oposição às pernas, com amplitude correspondente ao ritmo, ou seja, maiores velocidades irão requerer maior amplitude das pernas e consequentemente dos braços, com flexão aproximada de 90º entre braços e antebraços, que não cruzem demasiadamente a linha medial do tronco, relaxados nas articulações dos ombros e fixos nas articulações dos punhos.


POR OUTRO LADO...

- Braços com ângulos maiores de 90º criam a dificuldade de se fluir com o ritmo da corrida, e ainda uma força vertical para baixo na fase posterior do movimento;


- Braços com ângulos muito inferiores a 90º geralmente são inócuos, tardam às reações de reequilíbrio, e colados ao tronco, tendem a girá-lo exageradamente a cada passada e a provocar a protrusão dos ombros, que dificulta a respiração;


- Movimentação débil das articulações dos ombros ainda que por braços bem posicionados, por compensação, também provocam a rotação exagerada do tronco;


- Movimentos dos antebraços no sentido vertical oscilam o centro de gravidade também neste sentido;


- Mãos soltas pelos punhos tendem a solicitar mais os braços e tensionar a região dos trapézios


A despeito de muitas vezes não se reconhecer a devida importância, vários aspectos devem ser considerados quanto aos movimentos dos braços do corredor, então veja o quanto eles podem fazer por você:


RITMO | Nos momentos difíceis de um treino ou numa prova, em que precisamos de muita concentração pela força mental e tudo mais que puder ajudar a manter determinado ritmo, a potência relativa de braços treinados, pode acreditar, farão muita diferença.


A técnica de corrida para vencer os aclives é um pouco diferente daquela em terreno plano, e mais uma vez a eficiência dos braços ajudarão bastante.   


EQUILÍBRIO | Cada uma das passadas de uma corrida é feita de contato unipodal com avanço simultâneo da perna oposta seguida da fase aérea para o corpo todo, com discretos movimentos rotacionais opostos das cinturas pélvica e escapular; deslocamentos verticais do centro de gravidade também acontecem, e quem auxilia no equilíbrio de todas as forças geradas por toda essa complexidade são os braços.


Perceba que, sempre que se deparar com situações diferenciadas e instantâneas ao correr, como subir ou descer degraus, pisar em depressões ou outras irregularidades, o padrão de movimento da sua corrida subitamente muda, acompanhado imediatamente da mudança do padrão dos braços, que garantirão assim a continuidade do equilíbrio geral. 


DIREÇÃO | Correr é mesmo para frente, combinado!... mas o movimento de um ou dos dois braços cruzando demasiadamente a linha medial do tronco, ou o contrário, fugindo para fora, geralmente produzem uma rotação excedente do tronco e uma força resultante diagonal que empurra o corpo lateralmente a cada passada, e a cada uma delas vai sendo corrigido, ao custo de energia preciosa.


Enquanto os pés são nossos primeiros lemes; eles apontam e seguimos a direção, também na esfera biomecânica, os braços são nossos lemes secundários, sem a capacidade de determinar direções, mas capazes de atrapalhar um tanto.


Antebraços que oscilam para cima e para baixo ao invés de mantidos fletidos em 90º em relação aos braços, geram forças que tendem a deslocar o centro de gravidade que juntamente leva o corpo no sentido vertical além do necessário, aumentando a força de impacto no solo.

 

FUNCIONALIDADE | A função movimento é primordial, porém a atenção ao conjunto das estruturas que vão do alto do dorso, passando pelos trapézios rumo aos ombros, braços, antebraços e mãos, contribuem para uma boa postura de corrida; e movimento com harmonia é outra coisa...


ESTÉTICA | Braços que provocam rotações, antebraços pouco ou muito fletidos, que oscilam lateral ou verticalmente, mãos soltas pelos punhos e etc... geram arestas e movimentações desnecessários e fora do padrão específico e estético, estabelecendo um estilo individual, as vezes distante de uma técnica eficiente.


Somos seres fortemente norteados também pelo senso estético, não tem como negar. Não fosse assim, os fabricantes de tênis e todos os demais artigos para corrida, não precisariam investir tanto no design de seus produtos, e quem corre, procurar por formas, cores e combinações na hora de adquiri-los.


Após o final do percurso, serão lembrados o vencedor, o de melhor e o de pior técnica.


Então, não seria exagero, com tantos cuidados acerca da estética do que se utiliza para correr, a preocupação também, e maior ainda, com a estética do próprio movimento para se correr, não é mesmo...