Descubra por que avançar rápido demais no treino pode prejudicar seu desempenho e aumentar o risco de fadigas e lesões na corrida.
builderall

A equivalência da famosa ?Queima de Etapas? para os treinos e provas, é simplesmente quando se desconsidera um plano de orientação supostamente sob medida, ou mesmo sem qualquer diretiva, se assume a execução de tarefas geralmente além das possibilidades momentâneas na direção de metas dotadas de muito mais ambição do que realidade. 


Pode acreditar - essa tentação existe aos montes, talvez você já tenha presenciado ou até experimentado, e são praticadas em todos os níveis de corredores; dos amadores iniciantes aos já calejados e de altíssima performance.


Os treinos são flexíveis, ?mas não me altere o samba tanto assim?


COMO E ONDE ISSO ACONTECE

No Âmbito dos Treinos, as principais formas de se atropelar o processo de condicionamento para se correr, estão entre alterar o volume e ou a intensidade. Aquele treino longo, o qual se cumpre uns 30% a mais do que estava estabelecido, pois ?o dia estava bom e me sentia muito bem?; aquela semana com o acréscimo muito acima dos 10% preconizados pela teoria; aqueles tiros que beiraram o inexequível... são alguns exemplos de uma ?boa? e recorrente queima de etapa.


Na década de 80, o notável meio-fundista marroquino Said Aouita (multicampeão entre os 3.000 e 5.000m, mas com elevadíssima performance desde os 800m até os 10.000m), sem saber fez escola por aqui, mas de um jeito pitoresco. Seu processo de treinos foi replicado para um pequeno grupo de brasileiros, mas sem os critérios de especificidade, alguém duvidaria de tal fracasso?... e assim tivemos um bom exemplo de queima de etapas pelo padrão simplista de querer adiantar as coisas, para atletas já experientes, com um treinador nem tanto.

O fabuloso atleta Said Aouita


Uma década depois, seguia eu presenciando outra leva de atletas também formados, da queima de etapas até o declínio prematuro de suas carreiras, e outros grupos, dessa vez em iniciação esportiva, conduzidos a patamares não condizentes com suas estruturas ainda em formação, e que fatalmente sofreriam a especialização precoce e suas consequências, cuja mais frequente aconteceu: em pouco tempo não se via em competições nenhum daqueles pré-adolescentes até então vencedores em suas provas.


Os planos e os treinos são flexíveis, e tais premissas têm sido utilizadas como uma espécie de licença poética a treinadores imediatistas e seus métodos e processos que produzem campeões mirins, às vezes juvenis, mas quase nunca os adultos, e quando acontece, são de carreiras meteóricas. Falo desse assunto no artigo nesse link.


A federação norte-americana de natação, há décadas atrás, minimizou essa condição com protocolos de limites aos treinamentos de seus jovens atletas, o que evidencia a seriedade necessária do trato a uma área tão preciosa à modalidade e aos seus pré-adolescentes e adolescentes, na fase em que fabricam os sonhos de serem um paralelo de Phelps.


DISTÂNCIA DE PROVA

- Professor, quero correr aquela Maratona daqui a 04 meses...

- Mas você não estará pronto pra encará-la!

- Mas quero mesmo assim, vai ser legal!

- Então tá bom...


O diálogo acima foi só uma representação de uma prática comum para mostrar uma das maneiras de como as coisas se dão na queima de etapa para escolha de uma distância de prova a se participar.


É possível que todos ali tenham ciência da precocidade da ideia pela imaturidade orgânica do corredor, que o tempo é curto, às vezes algumas temporadas antes do ideal; de que vai ser legal até aproximadamente os 30 km (às vezes bem antes, como na tragédia de 05/06/2023 descrita abaixo) e após, um pesadelo; de que incorre em riscos; e de que deixará sequelas.


As distâncias mais longas de provas são bem exigentes quanto ao caráter e tempo de preparação, e a participação consistente em provas mais curtas é um dos importantes pré-requisitos. Sim, a maratona é uma prova fascinante quanto ao topo dos autodesafios e desafios, mas, um desafio assim sem cumprir pré-requisitos, é tentar atingir o topo do Monte Everest sem as oito semanas preparatórias. 


Veja só, o seguinte desdobramento... lançado um desafio empresarial para os colaboradores completarem uma maratona, nele, um jovem de 26 anos perdeu a vida aos 15 km. Evidenciado pelo próprio, mal estava preparado até mesmo para correr 5 km, mas uma sucessão de imperícias culminaram numa verdadeira tragédia (veja a matéria neste link: https://www.youtube.com/watch?v=890hbd1sYzo) há 3 meses da publicação desse artigo; mais uma prova cabal de que deve-se respeito à ciência do treinamento esportivo, que rege os detalhes do condicionamento, e que apenas a emoção é um estímulo enganoso para as corridas e muito pobre para certos desafios.

 

VOLTA AOS TREINOS PÓS LESÃO

As recidivas ocorrem, e como resultado em sua maior parte, pelo inadequado dimensionamento das cargas durante o delicado período da volta aos treinos e também pelo tempo insuficiente dado às cicatrizações e aos fortalecimentos da região acometida, e tudo isso configura um tipo de queima de etapas. Quando tudo já parece bem novamente, ainda é momento de olhos bem abertos no pós lesão.


Me lembro que, ainda atleta em formação, meu primeiro treinador e grande incentivador dizia:- ?temos que colocar muitos quilômetros nas suas pernas?. Ele estava dizendo sobre as bases para uma carreira sólida sem atropelos. Lembro também, já atleta formado, que meu último treinador foi impecável com as cargas de treinos, sempre muito preciso, a ponto de, e por sorte, eu ter que aprender sobre esse assunto observando o processo alheio.


Alguns fatores são preponderantes para explicar por que se queimam etapas, em menor ou maior escala:


PERFIL E FALSA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA

1. Na maioria dos casos e na condição de amador, o praticante não sabe que está queimando etapa ou etapas nos treinos ou provas;

2. O corredor tem ciência da queima de etapa, mas a comete devido ao seu perfil arrojado e ou pela ansiedade por resultados rápidos;

3. O atleta está sob orientação, seguindo um plano sem os fundamentos do treinamento esportivo;

4. O praticante julga que, uma fadiga pouco além do normal será a pior das consequências na queima de etapa, permanecendo seguro com essa prática. 


Dia desses via o relato de um jovem que, depois de um preparo havia feito um mergulho em apneia de 20 metros de profundidade, e que depois do feito, dizia sobre o erro de ter se exposto aos riscos dessa atividade, assim sem necessidade alguma. Essa é também uma realidade na subida de altas montanhas; a de que não existe risco zero...

 

Mas os pés no chão em ambiente controlado deixam alguns corredores, ainda que despreparados, supostamente 100% seguros para testarem seus limites, sem antes combinar com os russos da fisiologia.